Considerações acerca do decrescimento e pós-extrativismo

 

Imagem: definicion.de/   

I - Pós-extrativismo e decrescimento [ALBERTO ACOSTA; ULRICH BRAND, São Paulo: Elefante, 2018]

RESUMO DOS PONTOS CENTRAIS GERAIS


1. Tese Central: A Crítica ao Imperativo do Crescimento

O argumento central do texto é que o imperativo do crescimento econômico capitalista é o problema fundamental que impulsiona a crise socioecológica global. O texto defende que as soluções atuais não são suficientes e propõem o Decrescimento e o Pós-extrativismo como caminhos radicais para uma transformação social integral (cf. 2018, p. 109). No espectro do decrescimento têm-se propostas que vão desde “crescimento verde” até “crescimento zero”, “extrativismo progressista” até “extrativismo zero”, envolvendo diretamente a geração de riqueza, aumento do PIB e as políticas públicas.

·       Não às soluções "Verdes" superficiais: O texto critica abertamente as estratégias de "economia verde", "green new deal" e as abordagens ecokeynesianas (2018, p. 109). Argumenta-se que estas não representam uma verdadeira transformação socioecológica, pois continuam a encarar o crescimento econômico como uma necessidade, apenas o classificando como "qualitativo" ou "seletivo"3. O objetivo destas políticas permanece sendo "reacelerar o 'motor do crescimento'” (2018, p. 114 e sgs.).

·       A "Máquina Idiota" do Capitalismo: Retomando economistas como Herman Daly, o texto descreve a economia capitalista como uma "máquina idiota" que "metaboliza os recursos naturais, os processa, esgota, descarta e contamina" continuamente, esgotando a Natureza (Herman Daly - Quem foi, conceitos, obras, impacto e legado).


2. Decrescimento e Pós-extrativismo

As responsabilidades e os caminhos a seguir são complementares para os países do Norte e do Sul global:

1. Decrescimento (para o Norte Global)

O decrescimento é apresentado como uma proposta política radical, de um processo intencional de construção de novas formas de vida justas e sustentáveis.

·       É fundamental que as regiões industrializadas (Norte global) retrocedam no crescimento que obtiveram e que não pode ser reproduzido em escala mundial, reduzindo o fardo material sobre o meio ambiente (2018, p. 116 e sgs.).

·       Os países ricos devem incorporar critérios de suficiência em suas sociedades em vez de sustentar a lógica da acumulação material permanente, isto é, radicalizar a distributividade ao nível da propriedade privada individual.

 

2. Pós-extrativismo (para o Sul Global)

É o complemento necessário ao decrescimento e uma discussão urgente nos países subdesenvolvidos.

·       Os países do Sul devem desmontar as estruturas e práticas consumistas e produtivistas oriundas do Norte, buscando opções de vida digna e sustentável que não sejam uma "reedição caricatural do modo de vida ocidental" (2018, p. 114).

·       Isto exige diferenciar o crescimento "bom" (necessário para equidade social e suprir necessidades) do crescimento "mau" (o extrativista e destrutivo).


3. Justiça, Dívida Ecológica e Alternativas

De todas as formas, fica clara a relação intrínseca entre a economia política (a distributividade e a pobreza das populações) x o problema ecológico, tanto do ponto de vista da urgência climática como do esgotamento de recursos e depredação do capitalismo.

·       Justiça Social e Ecológica: O texto afirma que a justiça ecológica não será alcançada sem justiça social, e vice-versa.

·       Dívida Ecológica: Os países "desenvolvidos" têm a responsabilidade de pagar a sua dívida ecológica e histórica com os países subdesenvolvidos. Essa dívida tem origem na espoliação colonial e projeta-se no "intercâmbio ecologicamente desigual" e na biopirataria13.

·       O Bem Viver: O conceito de Bem Viver é proposto como uma noção aglutinadora mais potente do que o decrescimento para uma transformação civilizatória, especialmente em contextos latino-americanos.

·       Ecologia Política: A perspectiva da Ecologia Política é essencial para superar a dicotomia entre sociedade e Natureza, ao analisar as "relações societais com a Natureza" (2018, p. 104) e o crescente conflito gerado pela apropriação dos elementos da Natureza como "recursos" (cf. Marx, O Capital).

PONTOS NEVRÁLGICOS COLOCADOS PELO TEXTO – CAPÍTULO 3


4. O que significa “crescimento verde” no texto

  • Refere-se às políticas e discursos que defendem que é possível manter o crescimento econômico ilimitado, mas de forma “ambientalmente sustentável”, por meio de tecnologias limpas, eficiência energética e mercados de carbono.
  • Para Acosta e Brand, essa ideia é ilusória, porque mantém intacta a lógica produtivista e extrativista, apenas revestida de uma “pintura verde”.
  • Eles argumentam que o “crescimento verde” não questiona as bases estruturais do capitalismo global, nem enfrenta os limites ecológicos do planeta.
  • Em vez de propor uma transformação profunda, o conceito funciona como uma estratégia de legitimação: promete conciliar economia e ecologia sem alterar o sistema que gera a crise socioambiental.

 Isso expõe:

  • propostas de (pós)extrativismo e (de)crescimento, que buscam reduzir a dependência da exploração de recursos naturais e repensar radicalmente o modelo de desenvolvimento.
  • soluções tecnológicas não mais dentro da lógica de mercado (como fazer fora do sistema), exige-se mudanças culturais, sociais e políticas mais profundas, PARA ONDE APONTAM SOLUÇÕES AUTONOMISTAS E AUTOGESTIONÁRIAS.

5. O que significa “neoextrativismo progressista”

- O termo “neoextrativismo progressista” é usado para caracterizar uma estratégia adotada por vários governos latino-americanos, especialmente os chamados “progressistas” (como Bolívia, Equador e Venezuela em determinados períodos), que mantêm a dependência da exploração intensiva de recursos naturais, mas justificam essa prática com objetivos sociais – CONTUDO, COMO EFETUAR JUSTIÇA SOCIAL SEM PRODUCAO DE RIQUEZA?

  • Continuidade do extrativismo: Apesar do discurso de mudança, esses governos seguem baseando suas economias na exportação de matérias-primas (mineração, petróleo, gás, soja, etc.).
  • Justificativa social: A diferença em relação ao extrativismo clássico é que os recursos obtidos são apresentados como meios para financiar políticas sociais, redistribuição de renda e programas de combate à pobreza.
  • Contradição central: Acosta e Brand apontam que, embora haja avanços sociais, o modelo continua dependente da lógica extrativista, reproduzindo impactos ambientais e sociais graves.
  • Legitimação política: O “progressista” vem do fato de que o extrativismo é defendido como necessário para sustentar o projeto político de inclusão social, mas sem romper com a dependência estrutural das commodities.
  • Dependência e vulnerabilidade: Economias baseadas em commodities sofrem com volatilidade de preços, captura política e conflitos territoriais.
  • Limites planetários: A escala material do crescimento supera a capacidade de regeneração dos ecossistemas, deslocando custos para povos e territórios periféricos.
  • Neoextrativismo “inclusivo”: Mesmo com redistribuição social, a lógica de grandes projetos e exportação de matérias‑primas segue causando impactos e bloqueando alternativas.

6. Princípios do pós-extrativismo (alternativa ao neoextrativismo)

  • Suficiência e cuidado: Reduzir as necessidades de material e energéticas, reorganizando produção e consumo para necessidades reais, não para lucro.
  • Autonomia e relocalização: Fortalecer economias territoriais, agroecologia, cadeias curtas e diversidade produtiva.
  • Justiça socioambiental: Centralidade dos direitos de povos indígenas e comunidades locais; reparação de dívidas ecológicas.
  • Democracia econômica: Decisão coletiva sobre o que produzir, como e para quem; controle social de setores estratégicos.
  • Novos indicadores: Substituir o PIB por métricas de bem‑estar, tempo livre, saúde ecológica e equidade.

7. Agenda de Transição para Decrescimento e Pós-extrativismo

  • Freios aos megaprojetos: Moratórias seletivas, avaliação socioambiental rigorosa e proteção de zonas de alta biodiversidade.
  • Reforma fiscal ecológica: Desincentivo a materiais e energia intensivos; incentivo a reparo, reuso e circularidade.
  • Serviços públicos fortes: Mobilidade, energia, água, moradia e digital como direitos, reduzindo consumo privado compulsório.
  • Renda e trabalho: Renda básica combinada com redução de jornada e reconversão para cuidados, educação e restauração ecológica.
  • Energia descentralizada: Renováveis comunitárias, com governança local e metas de redução de demanda.
  • Planejamento democrático: Pactos socioecológicos, orçamentos participativos e auditoria de impactos.

8. Armadilhas a evitar

  • Austeridade ecológica autoritária: Cortes que punem os vulneráveis em nome do “meio ambiente”.
  • Captura corporativa: Greenwashing e soluções tecnológicas (tecnofix) que ampliam a extração (mineração “verde”, redução de riscos).
  • Romantização da escassez: Decrescimento não é empobrecimento; é redistribuição, suficiência e qualidade de vida.

Em síntese, a meu ver, a crítica é mais às formas nos limites ecológicos, do que ao desenvolvimento sustentável para uma racionalização que atenda ao desenvolvimento das populações mais pobres e vulneráveis. O pós-extrativismo e o decrescimento propõem reduzir a escala material da economia e reorientá‑la para vidas dignas dentro dos limites ecológicos, com democracia, justiça e pluralidade territorial. Em vez de crescer “de qualquer jeito”, trata-se de escolher o que vale manter, o que precisa diminuir e o que deve florescer.


II – Considerações acerca do "decrescimento" e "pós-extrativismo" segundo a dialética histórica além do empreendimento capitalista/   

1 – Crescimento e desenvolvimento não são iguais: pode existir crescimento (PIB) sem desenvolvimento (Bem-estar social para a população), mas é quase impossível pensar desenvolvimento sem crescimento; desenvolvimento sem crescimento é pobreza para muitos e acumulação para poucos, porque em algum momento a riqueza produzida será sofrível para atender dignamente as necessidades de todos (pensar assim faz parte de narrativas do poder); mas crescer e distribuir devem ser concomitantes com visada de recursos “limitados”, racionalidade produtiva, ciclo permanente de sustentabilidade, responsabilidade ecológica, para as quais o desenvolvimento das forças produtivas é necessário; desenvolvimento tecnocientífico é “infinito”, enquanto os recursos da natureza para isso podem ser “finitos”; as categorias “limitado” e “ilimitado” podem não ser adequadas, porque envolvem também noções de valores culturais (morais, éticos), ou particulares, de identidade, ou que envolvem a raça humana - as populações e as comunidades podem optar viver com "pouco", mas a menos que assim o desejem, não tem sentido privá-las das melhores condições de acesso ao desenvolvimento do conhecimento e ciências humanas, pois disto pode resultar jornadas de trabalho imensas com pobreza extrema e condições de saúde e educação francamente reduzidas; portanto, isto é algo que não pode ser decidido "de fora", por Estado ou partidos, ou por "movimentos"; se o limite interno é viver condignamente (material e imaterialmente), o limite externo é a imposição de formas de vida indignas e desnecessárias.

2 – O socialismo é um processo, demanda liberdade e desenvolvimento das tecnociências para aprimorar os meios de produção e os meios de trabalho coletivos e individuais, e com isto aprimorar as formas de fazer; o desenvolvimento das forças produtivas (tecnociências, engenharia dos modos de fazer) agilizam e aprofundam o processo de socialismo ou socialização, são essenciais agora para superar o capitalismo, e depois durante o socialismo [em ato], e já que este é apenas a fase de transição ao comunismo; desta forma, a ideia autonomista de autogestão comunitária/ associativa não é incompatível com o crescimento com desenvolvimento, não é incompatível nem mesmo com grandeza do PIB e do IDH, ao contrário.

3 – O trabalho é, com o desenvolvimento tecnocientífico, aplicado à produção e aos meios de trabalho, e como tal reforma as formas de saber e do fazer, mas, essencialmente, gera a potencialidade do tempo livre ou tempo de trabalho disponível; devido ao crescimento de capital fixo (mudança na composição orgânica do capital [Marx: O Capital; Grundrisse]), afasta-se na prática o homem do trabalho imediato compulsório, por dentro do capitalismo mesmo, com a possibilidade de "recriação” de formas de consciência além do tecnicismo, economicismo, produtivismo e consumismo, p. ex., para desempregados, subempregados, precarizados; a forma cooperada e associativa é uma possibilidade, então, com esta base, como um incremento real a atividades antissistêmicas, anticapitalistas, materiais (serviços, cuidados, economia solidária, reciclagem infinita, da coleta a substituição de materiais), e imateriais (como nas artes).

4 – A tese II, do socialismo autonomista em ato, responde aos problemas do crescimento verde ou neoextrativismo progressista, não em sua dimensão incontornável capitalista, não irracionalmente, não como tarefa necessária da reprodução do capital nas sociedades administradas; mas agilizar e potencializar as formas de fazer, o poder-fazer das subjetividades (identidades), e romper com o ciclo de espetacularização dos modos de vida; mesmo as iniciativas derivadas de escolhas individuais, de forma imediata e cotidiana contribuem para o “fluxo de fazer” da totalidade ; o autonomismo remete a complexidade da urgência ecológica e a transição energética extrativista (fóssil, mineral e de alimentos) para a comunidade, desvincula-a da penetração do Estado e da incontornável luta pelo Poder (culturas, grupos, Estados, regiões); a ideia que do capitalismo NÃO se pode esperar nada além de reprodução irracional e predatória da “razão instrumental” com vistas à acumulação de capital, que por dentro dele estão esgotadas (teorias finalistas) as possibilidades de superar a agenda e a gestão regressiva do processo industrial social, NÃO leva de fato a grandes possibilidades de resolução dos problemas energéticos e de sobrevivência da vida de forma sustentável, servindo mais para suscitar formas de regulação incorporadas pela indústria estabilizada; TODAVIA, centenas de milhares de pessoas no mundo vivem hoje à margem do sistema de mercado, muitos nos limites da sua sobrevivência, e sobre elas também não incide a dominação do poder-sobre do capital; estes indivíduos mostram o poder associativo, a criatividade antissistêmica, a capacidade de autogestão, a disposição de existir e exigir o direito de viver de outra forma; a par da questão da consciência, os fazeres no fluxo da vida além do capital estão dentro do capitalismo, e seria banal considerar que as lutas políticas não estejam acontecendo contra a forma de vida capitalista no caso de algumas centenas de milhares de indivíduos – a luta contra o capitalismo é ao mesmo tempo a luta contra o PODER, contra a BUROCRACIA, contra a RAZÃO INSTRUMENTAL [logo, a autogestão de pessoas livres quer superar os aspectos superficiais do capitalismo verde e do ecossocialismo regressivo]; REFREAR O DESENVOLVIMENTO DAS FORÇAS PRODUTIVAS TECNOCIENTÍFICAS PODE TORNAR SOFRÍVEL A VIDA, P. EX., NA EDUCAÇÃO, NA SAÚDE, NA SUSTENTABILIDADE ECOLÓGICA E PROTECAO DO PLANETA – O QUE DEPREDA E EXPLORA É O CAPITALISMO, NÃO O HUMANO, O HOMEM CAPITALISTA, NÃO O HUMANO).

5 – É falsa a ideia que a dialética materialista marxista seja predominantemente economicista [não é como a vemos em Lukács, Korsch, Rosa, Gramsci, Althusser], e que a ênfase em certas leis da reprodução do capital (como a reprodução ampliada (mais-valia relativa, capital fixo, queda da taxa de lucro), e concorrência (Marx: O Capital; Grundrisse) desconsidere: 1) a forma da luta revolucionária dos trabalhadores, formação de consciência etc.; 2) desconsidere as relações sociais; mesmo que se queira considerar  o lado econômico da equação do processo de superação do capitalismo, parte-se da premissa marxista que quando se opera na dimensão das forças de produção, imediatamente se opera nas relações sociais relativas a essa produção, pois elas são os dois lados da atividade produtiva (estrutura); portanto, a ideia de desenvolvimento tecnocientífico incorpora em si a ideia de alteração das relações sociais: na fórmula marxiana, da convulsão da incompatibilidade entre os meios e as formas, e entre os meios e as relações enquanto tal (Marx: Prefácio à Crítica à Economia Política; O Manifesto Comunista); como totalidade, isto significa a mesma "convulsão" para as demais esferas e dimensões da vida social (superestrutura); não se trata de desconsiderar nenhuma forma de luta (processo não significa “sem luta”) em nenhuma atividade possível contra o capitalismo, pelo contrário, SÓ SE REFORÇA O PAPEL DE CERTAS LEIS DO CAPITALISMO [ECONÔMICAS] NA MEDIDA DE SUA PERTINÊNCIA E INFLUÊNCIA [POLÍTICA] POR MEIO DAS AÇÕES CONSCIENTES DOS AGENTES SOCIAIS, POR MEIO DE SUAS ATIVIDADES ANTISSISTÊMICAS E ANTICAPITALISTAS, SUBJETIVAS OU NÃO, INDIVIDUAIS OU NÃO, COTIDIANAS NA MEDIDA DE SUAS POSSIBILIDADES IMEDIATAS; por este motivo, se diz “luta de classes ampliada”.

6 – Não é necessário novos conceitos, de há muito a sociologia sabe que crescimento não é desenvolvimento social, distribuição, bem viver – por isso foi desenvolvido o índice de desenvolvimento humano IDH; de forma que distinguir decrescimento de crescimento é o mesmo que distinguir crescimento de desenvolvimento, mas ao escrever decrescimento, confunde-se e deprecia-se o próprio desenvolvimento (humano) e decorre disto que as lutas anticapitalistas ficam “emparedadas” em uma visão determinada (marxista-leninista), sem a oportunidade de pensar como aproveitar o desenvolvimento científico como necessário para o IDH e Bem Viver (pratica-se um tipo reverso de negacionismo, na medida da negação da racionalidade objetiva, positivista); o mesmo acontece com a expressão “neoextrativismo”, para se usar distintamente no lugar pós-extrativismo, o que dá a entender a negação de todo e qualquer extrativismo (veja-se: “É necessário estar atento ao que já existe no mundo” — Entrevista com Gabriela Cabaña e Alberto Acosta | Revista Rosa 12), mas existem milhares de pessoas nos países menos desenvolvidos da América Latina, da África e da Ásia, que têm sua sobrevivência ligada às atividades extrativistas, NÃO NECESSARIAMENTE COMO COMMODITIES, e não é por acaso que seja exatamente nestes países que se encontram as maiores transformações nas ecovilas, nos movimentos por terra, ou por moradia e trabalho, quase sempre autogestionários, associativos, cooperados e autonomistas; a radicalidade que se pretende nos estudos de decrescimento e pós-extrativismo pode considerar algo mais imediato, como por exemplo, levar inclusão digital às periferias do sistema, em nossas cidades e no campo, conseguir água potável e saneamento básico; há que se encontrar formas que não confundam e não desconsiderem a realidade existencial das populações (inclusive culturais), não confundam os meios com as formas, no sentido que o desenvolvimento para o socialismo autonomista carece de desenvolvimento científico e tecnológico, como meios que crescem (dialeticamente) PARA MAIS TEMPO LIVRE, PARA MAIS EDUCAÇÃO E ARTES; não é verdadeiro (é falso) que o desenvolvimento para o Bem Viver tem que ser necessariamente do tipo de “tecnologia fraca” e “pobreza para todos” – o que acontece é que em certos movimentos ecológicos do campo da esquerda se desconsidera a perspectiva da dialética no materialismo histórico, com a visão errada que o aspecto qualitativo da dialética seja apenas característica do socialismo?! (p. ex.,  os países da "cortina de ferro" (sob domínio da ex-URSS) sem meios de produção mais desenvolvidos não tinham como aumentar o PIB, mantendo os trabalhadores sob regime severo de trabalho (até 14hs por dia), e sem perspectiva para os jovens casais que se negavam a ter muitos filhos, apesar dos programas dos governos para subsidiar a educação deles (em muitos casos, retirando as crianças das famílias): os pais não queriam que os filhos fossem ter tais condições de vida; por este motivo o dinheiro da UE fez a diferença e esses países acabaram aderindo ao neoliberalismo capitalista, como no caso da Hungria, da Bulgária, ou da Grécia e Portugal).


III - Quadro comparativo que organiza os principais elementos para construir a autonomia* [Jérôme Baschet: Adeus ao Capitalismo. São Paulo: Autonomia Literária, GLAC edições, 2021]

Aspecto

Capitalismo

Autonomismo

Organização da vida

Baseada no mercado e no Estado, que regulam produção e consumo.

Baseada em práticas comunitárias e autogestão, com decisões coletivas.

Trabalho

Assalariado, subordinado à lógica do lucro e da produtividade.

Trabalho voltado à reprodução da vida, cuidado e cooperação, sem centralidade do lucro.

Recursos

Apropriados privadamente, transformados em mercadorias.

Compartilhados como bens comuns, geridos coletivamente.

Decisão política

Exercida por instituições estatais e elites econômicas.

Exercida por assembleias, conselhos e formas horizontais de deliberação.

Relações sociais

Competitivas, individualistas, mediadas pelo dinheiro.

Solidárias, cooperativas, centradas em vínculos comunitários.

Horizonte histórico

Apresentado como inevitável e sem alternativas.

Aberto à pluralidade de caminhos, experimentação e construção de novas formas de vida.


* c/ recurso de IA

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