Os três livros de John Holloway

 

Howard Hodgkin, Artista e modelo, 1980 /

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 Meu contato com Holloway surgiu no âmbito da tese de doutorado em 2019: Mudar o Mundo Sem Tomar o Poder (2002) tinha logo no início uma tese poderosa: toda a mudança social está associada ao poder-fazer, às práticas cotidianas de todos os indivíduos “cansados” da desumanização e brutalidade explícita do capitalismo. Consequentemente, por mais que a dominação seja exercida de forma “capilar” pelo sistema do capital, o seu grau de atração gravitacional varia em função do poder-sobre, segundo Holloway, provocando distorções, fissuras e rupturas na malha do sistema. A tese é simples: a possibilidade de mais ou menos práticas disruptivas anticapitalistas, ou o grau de dominação, depende da atração com que o domínio sistêmico incide sobre o sujeito social, e isto é inevitável por si mesmo.

O fundamento desta teoria com base em Marx, que o autor esclarece no segundo livro, Crack Capitalism (2011), é a categoria de trabalho abstrato. Todavia, o que se entende aqui é que toda ação gera uma reação, ou seja, a existência de todas as práticas e experiências de reificação (no) capitalismo implica o seu reverso, aquilo que lhe é a contradição dialética e que ali está além da dominação que se exerce nas práticas dos sujeitos sociais: uma prática é algo e seu contrário, e todas as reificações são elas mesmas as possibilidades de ir além das formas do trabalho abstrato. E é isto que acontece, de certa forma, nas artes, no trabalho dos arte-mediadores que transformam o mundo com a educação.

Nos habituamos a exigir “nível de consciência” para agir, mas estamos todos, desde que nascemos, dentro da luta de classes, daí que todas as práticas do sujeito histórico portam consciência de suas experiências e posição no mundo; isto é potencialmente significativo para que cada prática, subjetiva ou coletiva, possa enfrentar a negatividade dos fazeres no capitalismo, todo o sofrimento que ele provoca. A “consciência determinada” não é condição para fazer e fazer-se diferente, só é necessária para fazer de uma determinada forma, ou seja, não fazer de muitas formas. O mesmo se poderia dizer, segundo o autor, para as chamadas “condições objetivas”. A revolução sob condições também é um poder-sobre em face do fazer-como. De forma geral, esta é a tese do terceiro livro de Holloway, Hope in Hopeless Times (2022).

Os livros de John Holloway foram escritos a partir dos anos 2000, após intenso debate político com os derivacionistas, fundamentalmente a partir da experiência zapatista em Chiapas, México; eles marcam uma forma diferente e poderosa de agir e lutar para superar o sistema de reprodução do capital, aqui e agora, que inspira há 30 anos milhares de movimentos em todo o mundo.

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O primeiro livro, Mudar o Mundo Sem Tomar o Poder (2003)-(Change the World Without Taking Power (2002),[1] defende que a luta de classes e a superação do capitalismo são coletivas, dos fazeres mais imediatos aos mais complexos e organizados, como que uma luta de classes ampliada e visível nos movimentos sociais populares, nos grupos em campanha por reconhecimento, dignidade e direitos, todavia, fundamentalmente contra a ortodoxia revolucionária bolchevique/ leninista, e mais além, introduzindo os conceitos de poder-fazer e poder-sobre. Este conceito de luta de classes ampliada também será desenvolvido por Holloway posteriormente (Epílogo, 3ª. ed., Mudar o Mundo..., 2010);[2] resumidamente, não é fato que se esteja propondo algo fora da luta de classes, mas de uma luta de classes em processo de emancipação – os trabalhadores não lutam como classe pelo trabalho, mas para emanciparem-se dele: “(...) não lutamos como classe trabalhadora, lutamos contra ser classe trabalhadora, contra sermos classificados”: (Holloway, 2010, p. 210).[3]

É importante que não se esqueça que a proposta hollowayana deriva dos estudos do “derivacionismo” da década de 1990; apesar de se intitular como parte da escola do cognitivismo operativo, Holloway se afasta de Hardt e Negri (2006), no sentido que estes autores pensam a via do socialismo como uma unidade orientada, coordenada e amparada, e a revolução das “multidões” para a tomada do poder, do Estado e de suas instituições, enquanto Holloway pensa no fazer autonomista, imediato, cotidiano de ações anticapitalistas e antiestatais - neste caso a luta não é por poder, por tomada de poder, para só depois alcançar o socialismo; assim, torna-se inviável a luta de posições em qualquer aproximação com o Estado. John Holloway (2003, p. 225) afirma:

Este ainda-não (anticapitalista – quer dizer, “ainda tenho algo a fazer”) não só pode ser visto na militância política aberta, como nas lutas da vida cotidiana, em nossos sonhos, em nossos projetos contra a negação de nossos projetos (pelo capitalismo), em nossas fantasias, desde os mais simples sonhos de prazer até as criações artísticas mais rupturistas.

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O segundo trabalho, “Crack Capitalism (Agrietar el Capitalismo; Fissurar o Capitalismo) de 2011,[4] apresenta as teses com que se localizam as fissuras existentes no capitalismo por seu próprio dinamismo, essencialmente a partir do “trabalho abstrato” – todavia, em relação ao nosso poder-fazer, não se trata apenas da criação de valor (cf. categoria de Marx), mas da própria existência “como valor-sem-valor”. Neste livro existem 33 teses: a partir do conceito de “trabalho abstrato” fica claro como a não realização de nossa existência, ou a existência reificada (alienada), é abrangente para o nosso fazer e autorrealização. Desta forma, todos estamos já dentro da luta de classes – essa luta é por nossa dignidade e podemos lutar quando nos afastamos dos mecanismos institucionais de organização patriarcal, oficial e partidária. Entre outras, Holloway apresenta as seguintes situações limite do “trabalho abstrato” onde se localizam as fissuras do capitalismo (resumidamente):

1ª.) Uma fissura é um rompimento com o espaço do trabalho fabril e com seu tempo técnico-especializado do poder-fazer – precisamos de outros espaços e tempos para outro poder-fazer, outro caminhar, e eles existem, apesar de tudo, são fundamentalmente espaços “não classificados”, mas também “não inseridos”, os de pessoas “fantasmas” que nada representam para o “mundo do trabalho”, e que Marx já havia identificado nos Manuscritos de 1844;

2ª.) Pode-se exercer uma antipolítica nas bordas da impossibilidade – o capitalismo é um sistema cujas rupturas do poder-fazer são mais visíveis e aumentam em potencial quanto mais afastados se estiver de seu “núcleo duro” [p. ex., voltando à questão da arte, suas possibilidades críticas são mais fortes nos limites de uma obediência e no limiar de uma nova “onda” de cultura (muitas vezes acompanhada de mudanças científicas importantes)] - o determinante é esse “afastamento”, como em Walter Benjamin (Entfernung e Entfremdung),[5] do modelo comumente praticado, nas fissuras do sistema, percebido no fluxo do fazer;

3ª.) A política diz respeito ao Estado; a antipolítica diz respeito a nós mesmos – o Estado e a política, a biopolítica como em Foucault, não dizem a razão a partir de nós, mas externamente e em direção a algo que não é o povo (como sabemos, normalmente “em direção à propriedade, e não ao sujeito”); o poder é a forma de obrigar a obedecer debaixo de uma constelação de interesses que pouco guardam a participação da população; e Holloway pergunta em nome de quem?, em nome do quê? Quem diz qual a direção que o povo deseja ou necessita?;

4ª.) O poder-fazer se revolta contra o trabalho (capitalista, ou “trabalho abstrato”) – o trabalho fabril, econômico, imediato, para sobrevivência, capturado pelo modo de produção capitalista na forma de “trabalho abstrato”, insere na organização social a dicotomia, a ambivalência, e a certeza reificada (alienada), diz do que se trata o “trabalho abstrato”; ele aparece, e não pode deixar de aparecer, no domínio da gerência fabril e administração social (tradicionalmente esta tese é fundamento de “História e Consciência de Classe”, de Lukács);

5ª.) O poder-fazer aparece, ao contrário, como trabalho útil, criativo, autorrealizador, inversamente às formas administradas do poder-sobre (do fazer-como) – desta forma, os fazeres espontâneos, cotidianos, colaborativos, solidários crescem de importância e ensejam lutas além do “trabalho abstrato” (que não vai servir mais para constituir o valor das mercadorias);

6ª.) Muitas outras derivações comandam nossa existência a partir da lógica desarrazoável do “trabalho abstrato”: o consumismo, como forma (psíquica) da relação social através das mercadorias (ou a perda do valor como trabalho humano); a naturalidade da força e da violência como subsidiária que se estende do comando da fábrica ao sindicato, ao Estado, à burocracia, à segurança social, à segurança jurídica – mas também ao patriarcado, ao machismo, ao racismo, à descriminação dos corpos e das identidades, à própria depredação da natureza - por isso a ruptura cotidiana imediata com as linhas e os espaços de poder é “revolucionária”, estas atividades operam nas possibilidades do sistema fissurado, nas rachaduras expostas, concretamente em um fluxo de muitas formas de fazer, mas com único sentido contra o sistema, e mais-além;

7ª.) Assim, o fato de Marx ter trabalhado exaustivamente a relação capital-trabalho não significa, todavia, que outros opostos, contrários e contraditórios não estejam presentes na “ossatura” do capitalismo, do tipo racismo, sexismo, machismo, patriarcado, todos fenômenos de uma nomenclatura de práticas necessárias subjacentes à reprodução do capital; Moishe Postone (Tempo, Trabalho e Dominação Social, 2014) tinha chamado a atenção disto ao colocar o trabalho em Marx não apenas como a especialidade de sustentação da luta de classes, mas, precisamente, como capaz de engendrar, por “encomenda”, tantas formas classificatórias quantas necessárias ao domínio (ao poder) e agenciamento de sua reprodução – em princípio todas estas formas nos ambientam e mantêm atrelados ao sistema de forma esperada e produtiva, quer dizer, elas representam de fato o próprio capital como “poder”, contra o qual se insurge John Holloway.

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Hope in Hopeless Times” (Esperança em Tempo de Desesperança), seu terceiro livro, foi publicado em 2022 (Londres). Nesta obra, o autor continua a desenvolver as teses dos dois livros anteriores para poder dizer que a “esperança” (como Ernest Bloch, em Princípio Esperança, 1954 (2005)) alimenta as motivações contra os Estados neoliberais de nosso tempo, tão tendencialmente à direita. Neste sentido, nos parece claro o fundamento “afirmação/ negação” espelhado em Hegel em sua Fenomenologia do Espírito, que outros autores (Richard Gunn; Adrian Wilding: Sobre la Dominacion y Su Fragilidad; In: Revolución, Crítica y Emancipación, 2023) chamam de “reconhecimento mútuo”, ao invés do reconhecimento unilateral oficial, institucional, protocolar. No “reconhecimento mútuo” desenvolve-se um processo – um fluxo de fazer - de reciprocidade, onde se garante potencialmente situações comuns e sentidos que criam lutas variadas cotidianas imediatas, bastante intuitivas, menos estruturadas, que se baseiam não no reconhecimento unilateral (cidadania, política partidária, Estado, organizações oficiais), mas no reconhecimento multilateral. Passo a citar Holloway (2022, p. 11):

Na esperança em tempo de sem esperança. Ele ama sua mãe e sua avó, mas continua murmurando não o suficiente! Não é o suficiente! Sim! Claramente, a única maneira de pensar sobre a revolução é contra qualquer noção de tomada de poder estatal, e certamente a única maneira de realizá-lo é através do reconhecimento, criação, expansão, multiplicação e confluência de sistemas anticapitalistas. Rachaduras. Sim, mas quando acordei esta manhã, o monstro ainda estava lá. Não é o suficiente! Devemos matar o monstro, mas isso parece impossível. Parece indestrutível. Rebeliões por todo o lugar, pessoas construindo alternativas, mas o dinheiro ainda governa. Como dizem os zapatistas, o capitalismo é como uma hidra. Quando cortamos uma cabeça, novas cabeças brotam para nos aterrorizar. Como podemos alcançar seu coração, seu coração sem coração? Como matamos dinheiro? Comece com esperança, da riqueza, do transbordamento, do antagonismo, mas parta também daqueles (reconhecimento, criação, expansão, multiplicação e confluência de sistemas anticapitalistas). Palavras terríveis: não o suficiente!

Esta experiência de reconhecimento é libertadora das subjetividades enquanto um “pulo para fora” do mainstreaming do capitalismo e do dinheiro (da produção e circulação do capital), e promove encontros, “[...] põe o foco na conectividade das lutas que propõe Holloway dando a mão a outro com o encontro, com a coletivização de nossas preocupações.” (Nasioka & Panierakis, 2023, p. 124-125)[6] – não por acaso esta categoria “encontro” faz eco de Althusser conforme o conceito de “materialismo aleatório ou socialismo aleatório” (A Corrente Subterrânea do Materialismo do Encontro, 1982).

 



[1] Edição brasileira: HOLLOWAY, John. Mudar o mundo sem tomar o poder. São Paulo: Viramundo, 2003.

[2] HOLLOWAY, John. Epílogo. In: Change the World Without Taking Power: the meaning of revolution today. New Edition. 3. ed. Londres: Pluto Press [Get Political]; Puebla: Instituto de Ciencias Sociales y Humanidades - Benemérita Universidad Autónoma de Puebla, 2010.

[3] “Epílogo”: HOLLOWAY, 2010, 3ª. ed. de Mudar o mundo sem tomar o poder. Miria Gambardella, em seu comentário: “John Holloway (2024). Esperança em tempos de desespero. Barcelona: El Viejo Topo, 346 pp.”, compartilha da mesma opinião quando diz: “Holloway insiste que resistir ao capitalismo não implica abandonar a esperança de uma mudança profunda, mas sim articular ambas as dimensões: táticas e estratégia”. Veja-se: Rev. Mex. Sociol., vol.87, no.4. Cidade do México, Out./Dez. 2025, Epub 28-Nov-2025.

[4] HOLLOWAY, John. Agrietar el capitalismo. El hacer contra el trabajo. Buenos Aires: Ediciones Herramienta, 2011.

[5] BENJAMIN, Walter. Magia e Técnica, Arte e Política. 7. ed. Obras escolhidas. v.1. São Paulo: Brasiliense, 1994. Na tradução de Sérgio Paulo Rouanet, por exemplo, vemos a importância do “distanciamento” ou do “afastamento” nos seguintes termos: “[...] a aparição única de uma coisa distante, por mais perto que ela esteja.” (Benjamin, 1994, p. 170).

[6] NASIOKA, Katerina; PANIERAKIS, Marios. Emancipando nuestros cuerpos (perdidos) em la era de la pandemia. In: VELA, Alfonso Garcia; BONNET, Alberto (Orgs.). Revolución, Crítica y Emancipación. Puebla (MX): BUAP, 2023.


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