Os três livros de John Holloway
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Meu contato com Holloway surgiu no âmbito da tese de
doutorado em 2019: Mudar o Mundo Sem Tomar o Poder (2002) tinha logo no
início uma tese poderosa: toda a mudança social está associada ao poder-fazer,
às práticas cotidianas de todos os indivíduos “cansados” da desumanização e
brutalidade explícita do capitalismo. Consequentemente, por mais que a
dominação seja exercida de forma “capilar” pelo sistema do capital, o seu grau
de atração gravitacional varia em função do poder-sobre, segundo Holloway,
provocando distorções, fissuras e rupturas na malha do sistema. A tese é
simples: a possibilidade de mais ou menos práticas disruptivas
anticapitalistas, ou o grau de dominação, depende da atração com que o domínio
sistêmico incide sobre o sujeito social, e isto é inevitável por si mesmo.
O fundamento desta teoria com base em
Marx, que o autor esclarece no segundo livro, Crack Capitalism (2011), é
a categoria de trabalho abstrato. Todavia, o que se entende aqui é que
toda ação gera uma reação, ou seja, a existência de todas as práticas e experiências
de reificação (no) capitalismo implica o seu reverso, aquilo que lhe é a
contradição dialética e que ali está além da dominação que se exerce nas
práticas dos sujeitos sociais: uma prática é algo e seu contrário, e todas as
reificações são elas mesmas as possibilidades de ir além das formas do trabalho
abstrato. E é isto que acontece, de certa forma, nas artes, no trabalho dos
arte-mediadores que transformam o mundo com a educação.
Nos habituamos a exigir “nível de
consciência” para agir, mas estamos todos, desde que nascemos, dentro da luta
de classes, daí que todas as práticas do sujeito histórico portam consciência
de suas experiências e posição no mundo; isto é potencialmente significativo
para que cada prática, subjetiva ou coletiva, possa enfrentar a negatividade
dos fazeres no capitalismo, todo o sofrimento que ele provoca. A “consciência
determinada” não é condição para fazer e fazer-se diferente, só é necessária
para fazer de uma determinada forma, ou seja, não fazer de muitas
formas. O mesmo se poderia dizer, segundo o autor, para as chamadas “condições
objetivas”. A revolução sob condições também é um poder-sobre em face do
fazer-como. De forma geral, esta é a tese do terceiro livro de Holloway, Hope
in Hopeless Times (2022).
Os livros de John Holloway foram
escritos a partir dos anos 2000, após intenso debate político com os
derivacionistas, fundamentalmente a partir da experiência zapatista em Chiapas,
México; eles marcam uma forma diferente e poderosa de agir e lutar para superar
o sistema de reprodução do capital, aqui e agora, que inspira há 30 anos milhares
de movimentos em todo o mundo.
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O primeiro livro, Mudar o Mundo
Sem Tomar o Poder (2003)-(Change the World Without Taking Power
(2002),[1] defende que a luta
de classes e a superação do capitalismo são coletivas, dos fazeres mais
imediatos aos mais complexos e organizados, como que uma luta de classes
ampliada e visível nos movimentos sociais populares, nos grupos em
campanha por reconhecimento, dignidade e direitos, todavia, fundamentalmente
contra a ortodoxia revolucionária bolchevique/ leninista, e mais além,
introduzindo os conceitos de poder-fazer e poder-sobre. Este
conceito de luta de classes ampliada também será desenvolvido por
Holloway posteriormente (Epílogo, 3ª. ed., Mudar o Mundo..., 2010);[2] resumidamente, não é fato
que se esteja propondo algo fora da luta de classes, mas de uma luta de classes
em processo de emancipação – os trabalhadores não lutam como classe pelo
trabalho, mas para emanciparem-se dele: “(...) não lutamos como classe
trabalhadora, lutamos contra ser classe trabalhadora, contra sermos
classificados”: (Holloway, 2010, p. 210).[3]
É importante que não se esqueça que a
proposta hollowayana deriva dos estudos do “derivacionismo” da década de 1990;
apesar de se intitular como parte da escola do cognitivismo operativo, Holloway
se afasta de Hardt e Negri (2006), no sentido que estes autores pensam a via do
socialismo como uma unidade orientada, coordenada e amparada, e a revolução das
“multidões” para a tomada do poder, do Estado e de suas instituições, enquanto
Holloway pensa no fazer autonomista, imediato, cotidiano de ações
anticapitalistas e antiestatais - neste caso a luta não é por poder, por
tomada de poder, para só depois alcançar o socialismo; assim, torna-se inviável
a luta de posições em qualquer aproximação com o Estado. John Holloway (2003,
p. 225) afirma:
Este ainda-não
(anticapitalista – quer dizer, “ainda tenho algo a fazer”) não só pode ser
visto na militância política aberta, como nas lutas da vida cotidiana, em
nossos sonhos, em nossos projetos contra a negação de nossos projetos (pelo
capitalismo), em nossas fantasias, desde os mais simples sonhos de prazer até
as criações artísticas mais rupturistas.
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O segundo trabalho, “Crack
Capitalism” (Agrietar el Capitalismo; Fissurar o Capitalismo)
de 2011,[4] apresenta as teses com que
se localizam as fissuras existentes no capitalismo por seu próprio
dinamismo, essencialmente a partir do “trabalho abstrato” – todavia, em relação
ao nosso poder-fazer, não se trata apenas da criação de valor (cf. categoria de
Marx), mas da própria existência “como valor-sem-valor”. Neste livro existem 33
teses: a partir do conceito de “trabalho abstrato” fica claro como a não
realização de nossa existência, ou a existência reificada (alienada), é
abrangente para o nosso fazer e autorrealização. Desta forma, todos estamos já
dentro da luta de classes – essa luta é por nossa dignidade e podemos
lutar quando nos afastamos dos mecanismos institucionais de organização
patriarcal, oficial e partidária. Entre outras, Holloway apresenta as seguintes
situações limite do “trabalho abstrato” onde se localizam as fissuras do
capitalismo (resumidamente):
1ª.) Uma fissura é um rompimento com
o espaço do trabalho fabril e com seu tempo técnico-especializado do
poder-fazer – precisamos de outros espaços e tempos para outro poder-fazer,
outro caminhar, e eles existem, apesar de tudo, são fundamentalmente espaços
“não classificados”, mas também “não inseridos”, os de pessoas “fantasmas” que
nada representam para o “mundo do trabalho”, e que Marx já havia identificado
nos Manuscritos de 1844;
2ª.) Pode-se exercer uma antipolítica
nas bordas da impossibilidade – o capitalismo é um sistema cujas rupturas do
poder-fazer são mais visíveis e aumentam em potencial quanto mais afastados se
estiver de seu “núcleo duro” [p. ex., voltando à questão da arte, suas
possibilidades críticas são mais fortes nos limites de uma obediência e no
limiar de uma nova “onda” de cultura (muitas vezes acompanhada de mudanças
científicas importantes)] - o determinante é esse “afastamento”, como em Walter
Benjamin (Entfernung e Entfremdung),[5] do modelo comumente
praticado, nas fissuras do sistema, percebido no fluxo do fazer;
3ª.) A política diz respeito ao
Estado; a antipolítica diz respeito a nós mesmos – o Estado e a política, a
biopolítica como em Foucault, não dizem a razão a partir de nós, mas
externamente e em direção a algo que não é o povo (como sabemos, normalmente
“em direção à propriedade, e não ao sujeito”); o poder é a forma de obrigar a
obedecer debaixo de uma constelação de interesses que pouco guardam a
participação da população; e Holloway pergunta em nome de quem?, em nome do
quê? Quem diz qual a direção que o povo deseja ou necessita?;
4ª.) O poder-fazer se revolta contra
o trabalho (capitalista, ou “trabalho abstrato”) – o trabalho fabril,
econômico, imediato, para sobrevivência, capturado pelo modo de produção
capitalista na forma de “trabalho abstrato”, insere na organização social a
dicotomia, a ambivalência, e a certeza reificada (alienada), diz do que se
trata o “trabalho abstrato”; ele aparece, e não pode deixar de aparecer, no
domínio da gerência fabril e administração social (tradicionalmente esta tese é
fundamento de “História e Consciência de Classe”, de Lukács);
5ª.) O poder-fazer aparece, ao contrário,
como trabalho útil, criativo, autorrealizador, inversamente às formas
administradas do poder-sobre (do fazer-como) – desta forma, os fazeres
espontâneos, cotidianos, colaborativos, solidários crescem de importância e
ensejam lutas além do “trabalho abstrato” (que não vai servir mais para
constituir o valor das mercadorias);
6ª.) Muitas outras derivações
comandam nossa existência a partir da lógica desarrazoável do “trabalho
abstrato”: o consumismo, como forma (psíquica) da relação social através
das mercadorias (ou a perda do valor como trabalho humano); a naturalidade
da força e da violência como subsidiária que se estende do comando da
fábrica ao sindicato, ao Estado, à burocracia, à segurança social, à segurança
jurídica – mas também ao patriarcado, ao machismo, ao racismo, à
descriminação dos corpos e das identidades, à própria depredação
da natureza - por isso a ruptura cotidiana imediata com as linhas e os
espaços de poder é “revolucionária”, estas atividades operam nas possibilidades
do sistema fissurado, nas rachaduras expostas, concretamente em um fluxo de
muitas formas de fazer, mas com único sentido contra o sistema, e mais-além;
7ª.) Assim, o fato de Marx ter
trabalhado exaustivamente a relação capital-trabalho não significa, todavia, que
outros opostos, contrários e contraditórios não estejam presentes na “ossatura”
do capitalismo, do tipo racismo, sexismo, machismo, patriarcado, todos
fenômenos de uma nomenclatura de práticas necessárias subjacentes à reprodução
do capital; Moishe Postone (Tempo, Trabalho e
Dominação Social, 2014) tinha chamado a
atenção disto ao colocar o trabalho em Marx não apenas como a especialidade de
sustentação da luta de classes, mas, precisamente, como capaz de engendrar, por
“encomenda”, tantas formas classificatórias quantas necessárias ao domínio (ao
poder) e agenciamento de sua reprodução – em princípio todas estas formas nos
ambientam e mantêm atrelados ao sistema de forma esperada e produtiva, quer
dizer, elas representam de fato o próprio capital como “poder”, contra o qual
se insurge John Holloway.
4
“Hope in Hopeless Times”
(Esperança em Tempo de Desesperança), seu terceiro livro, foi publicado em 2022
(Londres). Nesta obra, o autor continua a desenvolver as teses dos dois livros
anteriores para poder dizer que a “esperança” (como Ernest Bloch, em Princípio
Esperança, 1954 (2005)) alimenta as motivações contra os Estados neoliberais de
nosso tempo, tão tendencialmente à direita. Neste sentido, nos parece claro o
fundamento “afirmação/ negação” espelhado em Hegel em sua Fenomenologia do
Espírito, que outros autores (Richard Gunn; Adrian Wilding: Sobre la
Dominacion y Su Fragilidad; In: Revolución, Crítica y Emancipación,
2023) chamam de “reconhecimento mútuo”, ao invés do reconhecimento unilateral
oficial, institucional, protocolar. No “reconhecimento mútuo” desenvolve-se um
processo – um fluxo de fazer - de reciprocidade, onde se garante potencialmente
situações comuns e sentidos que criam lutas variadas cotidianas imediatas,
bastante intuitivas, menos estruturadas, que se baseiam não no reconhecimento
unilateral (cidadania, política partidária, Estado, organizações oficiais), mas
no reconhecimento multilateral. Passo a citar Holloway (2022, p. 11):
Na
esperança em tempo de sem esperança. Ele ama sua mãe e sua avó, mas continua
murmurando não o suficiente! Não é o suficiente! Sim! Claramente, a única
maneira de pensar sobre a revolução é contra qualquer noção de tomada de poder
estatal, e certamente a única maneira de realizá-lo é através do
reconhecimento, criação, expansão, multiplicação e confluência de sistemas anticapitalistas.
Rachaduras. Sim, mas quando acordei esta manhã, o monstro ainda estava lá. Não
é o suficiente! Devemos matar o monstro, mas isso parece impossível. Parece
indestrutível. Rebeliões por todo o lugar, pessoas construindo alternativas,
mas o dinheiro ainda governa. Como dizem os zapatistas, o capitalismo é como
uma hidra. Quando cortamos uma cabeça, novas cabeças brotam para nos
aterrorizar. Como podemos alcançar seu coração, seu coração sem coração? Como
matamos dinheiro? Comece com esperança, da riqueza, do transbordamento, do
antagonismo, mas parta também daqueles (reconhecimento, criação, expansão,
multiplicação e confluência de sistemas anticapitalistas). Palavras terríveis:
não o suficiente!
Esta experiência de
reconhecimento é libertadora das subjetividades enquanto um “pulo para fora” do
mainstreaming do capitalismo e do dinheiro (da produção e circulação do
capital), e promove encontros, “[...] põe o foco na conectividade das
lutas que propõe Holloway dando a mão a outro com o encontro, com a coletivização
de nossas preocupações.” (Nasioka & Panierakis, 2023, p. 124-125)[6] –
não por acaso esta categoria “encontro” faz eco de Althusser conforme o
conceito de “materialismo aleatório ou socialismo aleatório” (A Corrente
Subterrânea do Materialismo do Encontro, 1982).
[1] Edição
brasileira: HOLLOWAY, John. Mudar o
mundo sem tomar o poder. São Paulo: Viramundo, 2003.
[2] HOLLOWAY, John. Epílogo. In: Change
the World Without Taking Power: the meaning of revolution today. New
Edition. 3. ed. Londres: Pluto Press [Get Political]; Puebla: Instituto de
Ciencias Sociales y Humanidades - Benemérita Universidad Autónoma de Puebla,
2010.
[3] “Epílogo”: HOLLOWAY, 2010, 3ª. ed.
de Mudar o mundo sem tomar o poder. Miria Gambardella, em seu comentário: “John
Holloway (2024). Esperança em tempos de desespero. Barcelona: El Viejo Topo,
346 pp.”, compartilha da mesma opinião quando diz: “Holloway insiste que
resistir ao capitalismo não implica abandonar a esperança de uma mudança
profunda, mas sim articular ambas as dimensões: táticas e estratégia”. Veja-se:
Rev. Mex. Sociol., vol.87, no.4. Cidade do México, Out./Dez. 2025, Epub
28-Nov-2025.
[4] HOLLOWAY, John. Agrietar el capitalismo. El
hacer contra el trabajo. Buenos Aires: Ediciones Herramienta, 2011.
[5] BENJAMIN, Walter. Magia e Técnica, Arte e Política. 7. ed. Obras escolhidas. v.1. São Paulo: Brasiliense, 1994. Na tradução de Sérgio Paulo Rouanet, por exemplo, vemos a importância do “distanciamento” ou do “afastamento” nos seguintes termos: “[...] a aparição única de uma coisa distante, por mais perto que ela esteja.” (Benjamin, 1994, p. 170).
[6] NASIOKA, Katerina; PANIERAKIS,
Marios. Emancipando nuestros cuerpos (perdidos) em la era de la pandemia.
In: VELA, Alfonso Garcia; BONNET, Alberto (Orgs.). Revolución, Crítica y
Emancipación. Puebla (MX): BUAP, 2023.
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