Anotações sobre "Crítica do Programa de Gotha" (Karl Marx)
“Nesta obra Marx formulou simultaneamente toda uma série de ideias sobre as questões fundamentais da teoria do comunismo científico, tais como a revolução socialista, a ditadura do proletariado, o período de transição do capitalismo para o comunismo, as duas fases da sociedade comunista, a produção e a distribuição do produto social no socialismo e os traços fundamentais do comunismo, o internacionalismo proletário e o partido da classe operária.” (marxists.org).
As “glosas marginais” de Marx, de
1875, ou a “Crítica do Programa de Gotha”[1], confronta uma série de
deficiências no programa elaborado para a fusão dos dois partidos operários
alemães, reunidos de 22 a 27 de maio de
1875 na cidade de Gotha, o Partido Operário Social-Democrata - SDAP (Liebknecht
e Bebel) e a Associação Geral dos Operários Alemães - ADAV (fundada por
Lassalle); as anotações de Marx são sobre o Estado, a legalidade (ou o Direito) e,
especialmente, sobre a concepção de trabalho tal como aparece no programa, de
influência lassalliana (carta de Marx a Bracke – 1875 -, e prólogo de Engels à
publicação de 1891). Logo em seguida os socialistas foram colocados na
clandestinidade; só em 1890 o novo Partido Social-Democrata da Alemanha (SPD),
por proposta de Liebknecht, aprovou a confecção de um novo programa, que foi
aprovado no ano seguinte, outubro de 1891, conforme redação do próprio
Liebknecht – foi isso que levou Engels a dar conhecimento ao público as anotações de Marx que constitui esta Crítica – o prólogo de Engels a esta publicação data de 6 de janeiro de 1891.
PONTOS
CENTRAIS DAS “GLOSAS MARGINAIS”
PARTE
I
1) Trabalho x Natureza – a fonte de
riqueza é a natureza; a força de trabalho humana é tão natural como qq outro
recurso natural, o trabalho é fonte de riqueza enquanto força de trabalho do
trabalhador – Marx faz essa distinção para que fique claro que existe uma
relação de compra e venda da força de trabalho com lucro para o capitalista –
“trabalhar com sua permissão, viver com sua permissão” -, que trabalho como
natureza produziria apenas valores de uso, mas como força de trabalho comprada
produz valor (valor de troca); referindo-se à “compra de força de trabalho”
apenas como “trabalho” se faz o jogo do capitalista porque se esconde
precisamente a essência do lucro e da acumulação: a força de trabalho é
comprada sob condições desiguais e que exatamente aí se gera o mais-valor, o
lucro etc.
Trabalho x
superação do trabalho - Marx, ao falar da relação entre
sociedade e trabalho individual, deixa claro que a riqueza produzida “na e por
meio da sociedade” acaba na sociedade burguesa ser administrada pelo Estado,
isto é, pela própria burguesia dentro de uma determinada ordem, portanto para
uma determinada cultura, burguesa etc., onde “desenvolvem-se a pobreza e o
abandono do lado do trabalhador, a riqueza e a cultura do lado do não
trabalhador”, e que isto deveria ser “demonstrado com precisão” no programa,
“com precisão e de que modo, na atual sociedade capitalista, são finalmente
criadas as condições materiais etc., que habilitam e obrigam os trabalhadores a
romper essa maldição histórica” (p. 25), enquanto Lassalle, por outro lado, diz
que a associação dos produtores receberia salário, como “fruto integral do
trabalho”, o “ganho obtido nos negócios”.
Chamo a atenção destes pontos que me
parecem indicar possibilidades de ver-se como Marx pensa em acabar com o
trabalho remunerado na forma de salário enquanto venda de força de trabalho,
tanto pela intervenção do Estado como de um tipo de associação para a produção.
Ao se referir ao “trabalho” a burguesia sempre afirma para os trabalhadores que
lutar por direitos é coisa de “vagabundo”.
2) Meios de trabalho x fontes da
vida – aqui Marx diz que nos Estatutos da Internacional, quando se referia
aos meios de trabalho, se tinha uma visão mais completa incluindo a propriedade
dos latifundiários com os capitalistas, que havia sido usado (na Internacional)
“fontes de vida”, que incluía o monopólio bastante presente dos latifundiários
de terras, ao qual pertencia Bismarck, e com quem Lassalle conversara entre
1863 e 1864, a fim de implantar sua ideia de “socialismo estatal” (nota 3, p.
26).
Aqui me parece particularmente importante
que Marx não faça nenhuma concessão aos donos dos meios de trabalho, que esteja
representada a fração dos trabalhadores rurais que também entram na luta contra
os latifundiários, e particularmente que não se entenda apenas os operários das
fábricas como os únicos que sofrem a expropriação dos meios de trabalho e que
podem lutar contra os monopólios da terra – como é o caso presente ainda hoje
para a realidade agraria do agronegócio na AL. Tb é importante ver que Marx se
refere ao contexto da Alemanha e q portanto a luta da classe trabalhadora deve
ser tomada de acordo com a realidade presente do capitalismo (latifundiário,
industrial, financeiro, etc.); mas tb me parece q existe aqui, no repúdio do
“socialismo estatal” de Lassalle, que a revolução proletária não inclui a ideia de permanência de Estado
ou poder central, que o socialismo “não conversa” com essa centralização
organizadora e burocrática pelo menos do tipo estatal.
3) Distribuição justa x fruto do
trabalho – primeiro Marx começa dizendo que o “fruto do trabalho” é uma
“noção vazia, posta por Lassalle”, pq pode ser tanto o resultado material do
trabalho ou o valor nele contido, e neste caso, seria o valor total ou o valor
acrescido pelo trabalho (sobretrabalho) além do que pagaria a sobrevivência do
trabalhador (mais-valor)?
Depois Marx pergunta o que seria uma
“distribuição justa” que o programa advoga?, pq, afinal, a classe burguesa acha
a distribuição justa aquilo que paga como salário aos trabalhadores; e aqui
Marx lembra-nos que existe uma relação umbilical entre relações econômicas
(compra e venda de força de trabalho) e o arcabouço jurídico pertinente e
necessário, indicando q este deriva daquele e não o contrário, quer dizer, as
relações jurídicas normativas mantêm necessariamente as relações de produção
nos moldes em que a dominação da burguesia impõe para a reprodução do capital;
mas não parece, a meu ver, que Marx esteja ajustando seu percurso discursivo
nem para uma “derivação” incontinente de uma forma por outra, isto é, uma forma
jurídica normativa burguesa por uma forma jurídica normativa socialista... ele
diz que a propriedade dos meios de trabalho deveriam ser “transformados
em patrimônio comum” e não “elevados a patrimônio comum” – sigo aqui a
mesma ideia por detrás de Lassalle, do socialismo estatal, pq neste caso
“elevar a” pode ser “através de” um poder estatal.
Em lugar da “justiça” para a
distribuição da riqueza social (o q mais uma vez levaria à necessidade e um
poder estatal), Marx enumera uma série de aspectos que devem ser levados em
consideração e que impactam a distribuição, de ordem produtiva e de
ordem social - Ordem produtiva: 1. Recursos para substituir os meios de
produção consumidos; 2. O investimento para adiantar a produtividade e a expansão
da produção; 3. Manter a segurança e a saúde dos trabalhadores e atender a
emergências de intempéries naturais – Ordem social: 1. Custos gerais de
administração indireta (geração e distribuição de energia, custos de
informática, sistemas e bancos de dados, etc.); 2. A satisfação das
necessidades coletivas, como escolas, saúde, transporte, lazer, atividades
culturais e esportivas, possivelmente de segurança e justiça etc.; 3. Seguridade
social, aposentadorias e atendimento à população carente.
Então Marx diz que o “fruto integral
do trabalho” só poderá ser distribuído após se deduzirem estes gastos e que o
“fruto do trabalho”, passa a ser na verdade o “fruto parcial do trabalho”. Além
disso, com o fim da sociedade capitalista, os trabalhadores são os produtores
diretos e como tal já podem se reconhecer nas trocas “como parte integrante do
trabalho total” – isto deveria ser suficiente para alterar as relações sociais
da forma mercadoria, mas Marx, da mesma forma que no 18 Brumário, e no
Manifesto, diz q ao sair da sociedade capitalista traz “de nascença as marcas
econômicas, morais e espirituais herdadas da velha sociedade de cujo ventre ela
saiu” (p. 29), o que a meu ver fortalece a ideia de um processo rumo ao
socialismo e deste ao comunismo. Mas, de qualquer forma, Marx chama a atenção
que só chega ao produtor individual exatamente aquilo que deu à sociedade (p.
29), e q apesar do progresso a riqueza só não chega aos trabalhadores pq a
sociedade é de “igualdade burguesa” (p.30).
Considero aqui q a sociedade comunista
está em construção meio ao desenvolvimento das forças produtivas que possam
alterar a produtividade dos meios de produção destinando o que sobra para a
distribuição de riqueza além da remuneração do trabalho social. Nas próximas
páginas Marx dedica-se a explicar a questão da distributividade do ponto de
vista do “direito igual”, chamando a atenção das concepções burguesas que podem
estar por trás da divisão de riqueza, mas não mais em relação apenas à produção
individual, porque existem muitas diferenças entre produtores, como
produtividade, habilidades, saúde, família, e que tudo isso deve ser levado em consideração,
que, portanto, existe, após toda uma dedução de investimentos e gastos gerais
(como vimos acima), as “necessidades” concretas de cada produtor individual,
diferente da meritocracia da sociedade burguesa, onde “o igual direito (q o
programa estabelecia) é direito desigual” do ponto de vista da diferença entre
os produtores diretos – “Segundo seu conteúdo, portanto, ele é, como todo
direito, um direito da desigualdade”.
E então Marx escreve uma das passagens
mais contundentes do materialismo histórico, sempre por muitos lembrada: (ler
cit. à p. 33-34).
Termino este item dizendo que me
parece claro q para Marx q a distribuição de riqueza aparece no final, após o
desenvolvimento produtivo da sociedade, na forma comunista, de duas formas: “De
cada um segundo suas capacidades, a cada um segundo suas necessidades” –
portanto, conforme as “capacidades” e as “necessidades”: chama a atenção q aqui
pode-se inverter e colocar as necessidades materiais mais imediatas, para
todos, em primeiro lugar, e depois as capacidades... mas Marx não escreveu
assim! Sempre se procura relacionar estas duas premissas querendo com isso
colocar à frente o atendimento das necessidades, pressuposto da sociedade
comunista – isto é possível, claro, mas não foi assim q Marx escreveu...
haveria algum motivo para isso, isto é, colocar primeiro a distribuição
conforme as “capacidades”? mas Marx acha mais importante, no final do item,
mostrar que a distribuição segue pari passu a forma de produção, e q a economia
burguesa dá importâncias invertidas, pq mais uma vez precisa desviar a atenção
da dominação e exploração da força de trabalho na produção no capitalismo.
4) Classe trabalhadora x revolução:
em primeiro lugar Marx começa distinguindo o que é revolucionário e o que não
é, pois ele demonstra que a classe burguesa, a seu tempo, tb foi revolucionária
enquanto lutava contra as forças medievais latifundiárias e o sistema de
senhoria. Neste sentido, mais uma vez o programa deixava de lado a classe
latifundiária, q seria revolucionária ao lado da classe trabalhadora, qd na
verdade apenas esta pode ser revolucionária contra as elites capitalistas e
latifundiárias (Marx cita a passagem do Manifesto na p. 34).
De qualquer forma, sendo a sociedade
uma sociedade de classes, já nascemos inseridos em uma luta de classes – se é
verdade q a luta dos trabalhadores é contra todas as frações da classe burguesa,
é verdade q se abre um leque de possibilidades de luta contra o capitalismo e
pela sua superação ao socialismo e deste ao comunismo; para a leitura da
tradição aqui Marx estaria referindo-se essencialmente à forma da “ditadura do
proletariado".
5) Internacionalização x
nacionalização da luta dos trabalhadores: no item cinco Marx chama a
atenção que no programa de Lassalle se diz “nos marcos do atual Estado
nacional”, e q precisamente Lassalle “concebeu o movimento dos trabalhadores sob
a mais estreita ótica nacional (p. 35). A crítica acentua a diferença entre
conteúdo e forma, quer dizer, o que é particular é a “forma nacional”, pois a
organização dos trabalhadores começa nos limites dos países, sendo que quanto
ao “conteúdo” ele é o mesmo, conforme está no Manifesto Comunista.
Neste pormenor, lembro que esta é uma
das bandeiras políticas do trotskismo contra a ideia do “socialismo de um só
país” do período stalinista da URSS; o fato dos trabalhadores experimentarem
diferentes momentos do desenvolvimento capitalista, no conteúdo, eles ainda são
igualmente explorados pelo sobretrabalho não pago, p. ex. – neste sentido q se
desenvolveu a ideia de capitalismo sistêmico, “desigual mas combinado”, e isso
batalhava contra a ideia q servia de parâmetro para certo tipo de organização e
luta operária quanto a uma outra ideia, a de “condições objetivas” – se não se
pode abstrair o conteúdo da luta revolucionária, então, de acordo com as mais
variadas formas, a luta contra o capital deve se estender de muitas formas nos
vários contextos da reprodução do capital; isto pode ser entendido na posição
do “comércio exterior” e em “uma forma de política internacional” (p.
35), antecipando em muito a globalização e os acordos multilaterais q sustentam
o capitalismo hoje. Mas Marx critica q o programa de Gotha não mencione nada “sobre
as funções internacionais da classe trabalhadora alemã!” (p. 36), enquanto
a classe burguesa já se tinha aliado a todas as classes burguesas no mundo,
além da Alemanha, ou precisamente com ela – neste sentido, as condições
nacionais não só não impediram o comércio internacional, como não impedem “em
absoluto” a consciência de todos os povos.
Importante, saliento aqui, que Marx no
último parágrafo do item cinco, deixa claro que os trabalhadores em suas ações
internacionais não dependem “de maneira alguma, da existência da Associação
Internacional dos Trabalhadores”, mas é o contrário, quer dizer, a colaboração
dos povos oprimidos é q levam, em certas circunstâncias, à formação de certa
centralidade política internacional – e neste caso, Marx diz que em “sua
primeira forma histórica”, a Comuna de Paris (1871) sustentou a importância da
Associação Internacional, o q tornou-se impraticável após seu fim (p. 36).
PARTE II
1) Lei de Bronze do Salário:
Lassalle em carta ao Comitê Central para a convocação de um congresso geral em
Leipzig (nota 17, p. 37), havia escrito sobre a “lei de bronze”, que o salário
médio dos trabalhadores seria sempre “reduzido aos meios de subsistência
necessários” para sobrevivência e procriação, pois muito acima disso aumentaria
o número de trabalhadores devido à melhoria das condições de vida, ou não
poderia ficar muito abaixo disso pois nesse caso baixaria, pela miséria, o número de trabalhadores disponíveis, e em
ambos os casos, levaria a “flutuar” os salários para cima e para baixo – esta
visão bastante economicista é pouco precisa quanto aos salários, porque mais
trabalhadores pressiona os salários para baixo, enquanto menos trabalhadores
pressiona para cima, e que portanto, não parece “adequado” para definir os
salários; pense-se que no caso, a miséria dos trabalhadores não pode ser
considerada no socialismo como instrumento de regulação econômica de salários e
preços.
Mas como se viu antes (item 3, da
parte 1, p. 32), uma diretiva assim feriria diretamente o que Marx havia
afirmado: “De cada um segundo suas capacidades, a cada um segundo suas
necessidades”; como Lassalle não se referia de forma alguma ao trabalhador como
sujeito, e apenas reproduz um sistema de salário, capacidades e necessidades
desaparecem na sua “lei de bronze”, quer dizer, o próprio sujeito trabalhador
desaparece na lei econômica, e por isso, Marx (p. 37) chama a atenção que é um
“disparate de falar em ‘superação’ do sistema salarial’” e que “o certo seria:
‘sistema de trabalho assalariado’”, porque “Superando-se o trabalho
assalariado, é claro que se superam também suas leis”. Daí, como hipótese,
gostaria de pensar que Marx aqui, ao chamar a atenção que o “’sistema de
salário’ tem de ser superado” (p.38), não está pensando em um tipo de
trabalho social de tal forma que, no socialismo e comunismo, não seja pelo
salário que os indivíduos mantenham sua sobrevivência material e alcancem o
usufruto de suas capacidades.
Em seguida (p. 38), Marx chama a atenção
para isso quando percebe que por trás da “lei de bronze” está a “teoria
malthusiana da população”, também conhecida pela “lei dos rendimentos (da
terra) decrescentes” (p. 38); ele diz então que “os economistas vêm
demonstrando, há cinquenta anos ou mais, que o socialismo não pode acabar com a
miséria, que é fundada na natureza, mas apenas generalizá-la,
repartindo-a igualmente por toda a superfície da sociedade!” – esta posição
fisiocrata (riqueza da terra) sempre é usada para justificar a não superação do
capitalismo (que produz riqueza...) ainda em nossos dias, e em muitos casos
junto a muitos que fazem apologia de um “socialismo de pobreza”, o que nos leva
de volta a pensar na importância do desenvolvimento das forças produtivas.
2) Diferença sobre o valor e o
preço do trabalho: Um outro ponto que Marx desenvolve na crítica ao lassalianismo,
é sobre a diferença entre o salário como valor do trabalho ou o preço
da força de trabalho defendida pelos adeptos de Lassalle; quando se pensa
em “preço” submete-se o salário às flutuações de mercado (como no item
anterior, mais ou menos mão de obra), e, com isso, omite-se a condição
escondida do pagamento da força de trabalho como salário com base em horas
trabalhadas por período (cf. contrato), pois o valor do trabalho é medido pela cesta
básica de reprodução da força de trabalho do trabalhador, e desta forma
sempre o trabalhador trabalha mais que isso, gerando mais-valia para o
capitalista; como Marx diz (p.38): “e ficou claro que o trabalhador assalariado
só tem permissão de trabalhar para sua própria vida, isto é, para viver,
desde que trabalhe de graça um determinado tempo para o capitalista (por isso,
também para aqueles que, juntamente com ele, consomem mais-valia)” – neste
parêntesis Marx parece se referir aos que se beneficiam da mais-valia produzida
sob exploração dos trabalhadores [Marx diz que “com isso foi descartada toda a
concepção burguesa de salário até hoje, assim como toda crítica a ela dirigida”].
Então Marx explica toda a mecânica
capitalista de como pela contratação da força de trabalho a produção (p. 39)
“gira em torno do aumento desse trabalho gratuito graças ao prolongamento da
jornada de trabalho (mais-valia absoluta) ou do crescimento da
produtividade (mais-valia relativa)”, afirmando que o trabalho assalariado é
uma escravidão, e que essa escravidão “se torna tanto mais cruel na medida em
que as forças produtivas sociais do trabalho se desenvolvem, sendo indiferente
se o trabalhador recebe um pagamento maior ou menor”. Neste sentido, a posição
de Lassalle tomava a aparência (preço de mercado da força de trabalho)
pela essência (o valor do trabalho a gerar mais-valia): isto é ilustrado
com uma analogia – diz Marx (p.39) que: “É como se, entre escravos que tivessem
desvendado o segredo da escravidão e iniciado uma rebelião [...] escrevesse(m)
no programa da rebelião: ‘A escravidão tem de ser abolida, pois o custo de
manutenção dos escravos não pode, no sistema de escravidão, ultrapassar certo
limite máximo, bastante baixo!’”.
PARTE III
1) Cooperativas de produção com
subvenção estatal: Nesta parte discute-se a “criação de cooperativas de
produção com subvenção estatal”, que o programa de Gotha apresentava;
inicialmente Marx chama a atenção para a expressão “se conduz”, como se a
“questão social” tivesse uma solução a ser conduzida, e não surgisse do
processo revolucionário de transformação da sociedade – além disso, Marx (p.
40) ressalta que o programa imagina um novo estatismo através da “subvenção
estatal”, repetindo aqui o “socialismo estatal” proposto por Lassalle,
“subvenção que o estado concede às cooperativas de produção criadas por ele, e
não pelos trabalhadores”, e que seria uma “presunção de Lassalle imaginar que,
por meio de subvenção estatal, seja possível construir uma nova sociedade da
mesma forma que se constrói uma ferrovia”.
O programa dizia que as cooperativas
subsidiadas pelo Estado, teriam “o controle democrático do povo trabalhador,
mas Marx pergunta: o “que quer dizer o ‘controle sob o governo do povo do povo
trabalhador?’” - então Marx (p. 40) lembra que a maioria do povo trabalhador na
Alemanha “consiste majoritariamente em camponeses, e não em proletários, para
em seguida dizer que não existe “controle democrático sob o governo do povo
trabalhador” se ele “expressa sua plena consciência de que não só não está não
poder, como não está maduro para ele!”; a meu ver daqui pode-se deduzir que os
trabalhadores têm que chegar ao poder, e para tal precisam de condições
“maduras” para isso; mas, ao mesmo tempo, que o trabalho cooperativado não pode
manter estreita relação com o Estado, que as “atuais sociedades cooperativas,
elas só têm valor na medida que são criações dos trabalhadores e independentes,
não sendo protegidas nem pelos governos nem pelos burgueses” (p.41). Contudo,
se no momento atual – do capitalismo – as cooperativas devem ser
“independentes”, por que os trabalhadores seriam regressivos para o
poder e para o estatismo, que os subsidia e controla, no socialismo? Marx mesmo
diz que os trabalhadores, a nível nacional, lutam para “subverter as atuais
condições de produção e não têm nenhuma relação com a fundação de sociedades
cooperativas subvencionadas pelo Estado!”” (p. 41).
PARTE IV
Marx divide esta parte em A e B para
falar sobre “a democracia”.
A) “Base livre do “Estado”:
1) Alcançar o “Estado livre”,
não é o programa dos trabalhadores “já libertos da estreita consciência do
súdito” (p. 42) – o objetivo da classe trabalhadora “liberta” de sua
consciência de subalterno é acabar com o Estado burguês e as concepções burguesas
de liberdade e democracia – “sufrágio universal, legislação direta, direito do
povo, milícia popular etc.” (p. 43) -, e construir o comunismo, e como sabemos
é uma aporia pensar em “Estado comunista”; falar de liberdade sob
controle de Estado só é possível na narrativa liberal burguesa, e mesmo nela,
como definir qual Estado seria mais democrático, ou mais liberal, ou mesmo com
mais direitos que outro, se seus objetivos são a dominação e exploração da
classe trabalhadora?, por isso Marx (p. 42) afirma que “as variadas
configurações, têm em comum o fato de estarem assentados sobre o solo da
moderna sociedade burguesa, mais ou menos desenvolvida em termos capitalistas”.
Neste sentido, só é possível imaginar o Estado atual em “contraste” com o
futuro, e Marx acrescenta, “quando sua raiz atual, a sociedade burguesa, tiver
desaparecido” (p. 42). Para Marx (p. 43), as funções sociais análogas da
sociedade comunista com a atual só podem ser respondidas de “modo
científico”... e entre a sociedade capitalista e a sociedade comunista
“corresponde também um período político de transição, cujo Estado não pode ser
senão a ditadura revolucionária do proletariado” – acho importante
frisar que para Marx essa “ditadura” é revolucionária e é de transição, porque
não faria sentido falar de uma sociedade comunista “reacionária” do tipo
totalitarismo; logo, o Estado deve ser superado junto com o capitalismo, para
que a soberania popular exista em uma república democrática.
2) Sobre a democracia “burguesa”:
Depois de colocar abaixo de outros programas de movimentos operários na França
ao longo do século XIX (nota 25 da p. 44), e de dizer que o programa de Gotha
de Lassalle pactuava com o Estado prussiano, que é um “despotismo militar” a
favor da “democracia burguesa”, Marx (p. 44) reforça duas ideias fundamentais
do materialismo histórico: 1. Que a “democracia vulgar” é a “última forma de
Estado da sociedade burguesa [na qual] a luta de classes será definitivamente
travada”, indicando, portanto, que os trabalhadores travam suas lutas no
processo de desenvolvimento sociedade burguesa, mas não qualquer democracia,
que Marx chama de “democratismo”, “autorizado pela polícia e desautorizado pela
lógica” – e por isso, penso eu, que se não é admissível pactuar com a democracia
burguesa, a luta de classes cotidiana,
de muitas formas, será mais promissora quanto mais “democrática vulgar” ela puder
apropriar-se, com espaço e tempo, também nos moldes burgueses por
“direitos”, e que é exatamente com relação a esses direitos que muitas lutas
armadas começaram e se mantém os movimentos revolucionários; 2. Que o Estado
(p. 45) “forma um organismo próprio, separado da sociedade”, o que fica
demonstrado no programa do partido que “exige,
como base econômica do Estado, um imposto único e progressivo sobre a renda
etc.”; o que leva Marx (p. 45) ainda a repetir que “Os impostos são a “base
econômica da maquinaria governamental”, e nada mais”, e que o imposto sobre a
renda (como na Suíça) “pressupõe as diferentes fontes de renda das diferentes
classes sociais”, logo, diz Marx, “pressupõe a sociedade capitalista”, e assim
não era de estranhar que o programa do Partido Operário fosse tão semelhante às
reivindicações reformistas dos burgueses de Liverpool (nota 28, p. 45) –
neste sentido, a luta da classe trabalhadora contra a “maquinaria
governamental”, é a luta da classe trabalhadora contra a “maquinaria estatal”
autocrática, centralizadora e burocrata: a luta contra a burocracia é, ao mesmo
tempo, uma luta contraeconômica e contrapolítica, o que, me
atrevo a dizer, reforça aqui a aproximação de Marx com a visão de comuna
autogestionária.
B) “Base espiritual e moral”
1) Sobre educação: Primeiro
Marx pergunta o que seria “educação popular igual” que consta no programa de
Gotha do Partido Operário?! Marx afirma (p. 45) que a educação no Estado
burguês não pode ser igual porque os filhos da classe burguesa não frequentam
as escolas públicas que os filhos dos trabalhadores, e não pode existir essa
igualdade em uma sociedade de classes; em seguida ele comenta que a
universalidade do ensino sob auspícios estatais já existia na Alemanha, e a
gratuitidade também existia na Suíça e nos EU, inclusive para o ensino superior,
mas “que nesses lugares os custos da educação das classes altas são cobertos
pelo fundo geral dos impostos”, ou seja, pela exploração do povo trabalhador
(se pensamos como os trabalhadores produzem mais-valia) – não se pode deixar de
notar que esses exemplos são de sociedades com o capitalismo mais desenvolvido
na época, o que não acontecia com a Alemanha, que ainda permanecia na tradição
aristocrática da terra.
Mas então, Marx (p. 46) manifesta a
necessidade de escolas técnicas (teóricas e práticas) combinadas com a escola
pública, coisa que o programa não fala; a ideia de Marx era que claramente
seria necessário acompanhar as funções escolares, como currículos, qualificação
de professores, e recursos cujo controle poderia ser efetuado por inspectores,
mas diz ele, “outra [coisa] muito diferente é conferir ao Estado o papel
educador do povo!” – esta observação de não intervenção estatal de Marx, claro,
não se refere apenas às sociedades capitalistas, mas a todas as sociedades [de
classe ou não], como demonstra a declaração de princípio de Marx em seguida: “O
governo e a Igreja devem antes ser excluídos de qualquer influência sobre a
escola.” (p. 46); e que o programa não manifesta para agrado do Estado
prussiano, “que [o Estado] necessita receber do povo uma educação muito
rigorosa”.
O programa ainda fala de “liberdade da
ciência” e “liberdade de consciência” – Marx diz que a primeira [ciência] consta
da constituição prussiana, e que a segunda [consciência[ não tem sentido
colocar em um programa socialista, e que se deveria declarar que a liberdade de
consciência burguesa “não vai além da tolerância entre todas as formas
possíveis de liberdade religiosa de consciência”(p. 47) , que se deve
libertar a consciência de “qualquer assombração religiosa”.
2) Jornada “normal” de trabalho (p.
47): A jornada de trabalho não pode ser tão vaga, mas que em todos os
países os partidos operários sempre fixam a duração da jornada de trabalho,
que, em determinadas condições, considera normal.
3) Limitação do trabalho das mulheres
e proibição do trabalho infantil: Marx diz que essa limitação às mulheres é
a mesma prevista na jornada de trabalho geral, mas que deve ser considerado o
trabalho nocivo ao corpo feminino, “ou moralmente ofensivos a esse sexo” (p.
47). Já com relação ao trabalho infantil, as palavras de Marx (p. 47) têm
modernamente sido mal interpretadas: “A proibição geral do trabalho infantil é
incompreensível com a existência da grande indústria e, por essa razão, um
desejo vazio e piedoso” – vale lembrar que Marx aqui chama a atenção que no
sistema capitalista que se vive em seu tempo, seria uma “ilusão” proibir
trabalho infantil; tanto que em seguida Marx diz que a aplicação dessa
limitação [do trabalho infantil] deveria ser acompanhada de uma formulação de
jornada de trabalho por faixas etárias, e com “a combinação de trabalho
produtivo com instrução, desde tenra idade, é um dos mais poderosos meios de
transformação da sociedade atual.” (p. 48) – a ideia de Marx era que o
aprendizado das crianças e jovens, deve ser sempre acompanhado de “práticas e
trabalhos” correspondentes; não deixa de existir aqui uma denúncia das
condições da educação e do trabalho, por sinal, neste último caso, faz parte da
tradição do pensamento socialista esta necessidade de “unir a educação ao
trabalho”, como em Anton Makarenko (Poema pedagógico), ou a “atividades
práticas culturalmente significativas” como em Lev Vigotski (A formação social
da mente), ou uma “educação popular” freiriana, como em Moacir Gadotti (Educar
para um outro mundo possível), tradição que está comprometida com a necessidade
de “formação de consciência” e do “trabalho útil” social de futuras gerações.
4) Supervisão estatal da indústria
fabril, oficinal e doméstica: Neste item Marx (p. 48) apenas comenta que em
relação ao controle fabril do Estado (prussiano-alemão, policialesco), devia-se exigir que os
inspectores fossem removidos apenas por decisão judicial; e que os mesmos deviam poder ser denunciados pelos trabalhadores por violação do dever – isto indica que
provavelmente os inspectores acabavam sendo “postos avançados” policiais do
governo, o que possivelmente indica que, no mínimo, se essa função for
necessária no futuro, os inspectores deveriam ser eleitos e destituídos pelos
trabalhadores.
5) Regulamentação do trabalho
prisional: Marx (p. 48) defende que os socialistas deveriam deixar claro
não usar os prisioneiros comuns para controle de concorrência da mão de obra,
“como gado”, tendo por base critérios sociologicamente científicos; e
também que, ao contrário, a prisão deveria ter como “único meio de correção: o
trabalho produtivo.”
6) Uma lei de responsabilidade
civil eficaz: O que seria “eficaz”, pergunta Marx (p. 48)? Uma lei de
responsabilidade civil só faz sentido em uma sociedade de livre concorrência, e
de exploração, e que ao se falar de “jornada de trabalho”, dever-se-ia pensar
sobre as condições sanitárias e proteção contra acidentes – Marx deixa claro
que a “responsabilidade civil só entra em ação quando se infringem essas
prescrições”.
[1] (Cf. edição Boitempo, 2012).
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