Carta a Uma Senhorita em Paris
LINGUAGEM,
INCONSCIENTE E ARTE A PARTIR DE UM CONTO DE JÚLIO CORTÁZAR /
Quando no conto Carta a uma senhorita em Paris, a
personagem de Júlio Cortázar – possivelmente seu alter ego – vai morar
por uns meses no apartamento de uma amiga que viaja de Buenos Aires para Paris,
algo fantástico e mesmo bizarro acontece, o novo hóspede começa a vomitar
coelhinhos. Os coelhos são escondidos da empregada da casa durante o dia no
armário do quarto do novo morador, e soltos à noite quando esta dorme. No
início dá para manter as aparências da casa em ordem, com alguns remendos nos
objetos que se quebram ou são destruídos pelos coelhinhos, mas eles crescem e
já são 11 vomitados. E nada indica que vai parar.
Vomitar coelhos só pode ser do inconsciente – não pela sua absurdidade,
mas por sua potência de existir fantasticamente, por sua potência de crescer e
destruir a estabilidade dada. E neste caso, como muitas vezes na realidade, os
elementos disruptivos “crescem”, revolucionam – o corpo, a psique apenas os
coloca em cena, a natureza se mostra então hostil ao que está organizado, o que
está no lugar, o que tem valor monetário etc., representado pela organização
metódica do apartamento emprestado. Existe aqui um desafio do inconsciente
sobre a organização, a estabilidade da vida burguesa e de uma organização
asséptica do ambiente comportado, desafio que não se revela de imediato em toda
sua potência, mas à medida em que os coelhinhos vão crescendo. O fantástico não
está, portanto, apenas no fato irrealista que a personagem vomita coelhos, mas
no fato que isso acontece sucessivamente, primeiro menos, depois mais, os
coelhos pequenos tentam ser controlados, depois eles crescem e não é mais possível.
Essa progressividade, então, cria a tensão de andamento da narrativa
sempre progredindo do ambiente normalizado, controlado, para uma situação
incontrolável de forma acelerada.
Impossível não mencionar a doença de Cortázar que parece ser
algo assim: uma força que faz o corpo evoluir e crescer em partes, agigantar-se
contra o normal, o estético, o natural... um corpo em profusão desordenada que não cabe nas
gavetas programadas das atividades e nem da vida biológica normal. A
acromegalia (gigantismo) também combina com a ideia de crescimento
incontrolável dos coelhinhos – e que esse crescimento destrói tudo em volta. O
escritor apenas o pode fazer com a palavra do fantástico, mas a crítica precisa
estar ambientada na realidade (sociedade burguesa) de uma estética que lhe dá
sentido, por antíteses neste caso (estabilizado, administrado, organizado,
limpo, de um lado, a desorganização, quebra, roer, sujeira que os coelhos
provocam, de outro).
Todavia, seria demais pensar que “alguma” ordem poderia ser aqui
desejada como contraposição a uma doença devastadora? E neste caso o
crescimento dos coelhinhos um mal, mas não voltado contra a “ordem” indesejada,
mas desejada?
A escrita fantástica transcende a normalidade, transcende os limites
do ordinário; por esse motivo, a literatura do chamado [realismo] fantástico e
as manifestações cifradas do inconsciente constituem metáforas verossimilhantes
complementares.
Se “o ato de
vomitar representa o ato de dizer ou escrever”, então este dizer só pode ser escamoteado,
escondido, uma crítica cuja força se dissimula por detrás do “dizer fantástico”
de uma irrealidade convincente. Em grande parte, a arte do inconsciente é na
mais das vezes um dizer artístico, quer dizer, que exige interpretações,
atenções, ir além do que ali está presente e do que é verossímil.
O fenômeno de vomitar coelhinhos é uma metáfora que só pode
ser entendida dentro de um certo realismo, uma implicatura linguística que
adquire “sentido” não explícito dentro de um todo muito maior que também se
revela apenas metaforicamente – toda a organização meticulosa no meio e um
ambiente de erudição, livros, dicionários etc. É a estrutura da totalidade, o
cognitivo geral que possibilita o nível de entendimento, o realismo pressupõe
algum grau de compreensão da realidade como ela é explicada, explicar além do
explicar é a estrutura do realismo fantástico.
Uma coisa é certa, o inconsciente nunca se apresenta de
forma direta mas apenas como algo decifrável – aparentemente o problema do
personagem no conto é apenas ter que permanecer no apartamento como convidado,
mas logo que ele pega o elevador os coelhinhos começam a ser vomitados,
demonstrando assim que o desafio é enfrentar a organização constituída do ambiente;
os coelhinhos vomitados são a consequência dessa estabilidade ou vida
administrada.
Do ponto de vista da linguagem, realidade para o
inconsciente é tudo aquilo que é pensável. Mas aqui a surpresa: a personagem e
os coelhos deixam de existir, suicidados... o ambiente ganha algo aqui?; mas
então também inesperadamente, a tensividade acaba.
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