Seguir Por Email

sábado, 26 de janeiro de 2008

Dois Olhares Sobre o Ser Humano: Filosofia e Psicologia


Uma introdução à psicofilosofia nietzscheana

O ser humano é possivelmente a única entidade capaz de refletir sobre si. Esta reflexão, no entanto, não se dá sempre da mesma forma, quer dizer, sob o mesmo prisma (como um caleidoscópio que nos fornece imagens e cores diferentes do mesmo cristal). O conjunto ordenado das diversas formas como podemos refletir sobre nós mesmos, forma a área de conhecimento humano que chamamos de Ciências Humanas. Assim, para refletir sobre o que somos e o que realizamos, usamos vários enfoques, várias formas de “olhar” o mesmo objeto de estudo, neste caso, o homem. A filosofia é uma disciplina das Ciências Humanas. Existem outras disciplinas que estudam o ser humano, como por exemplo, a sociologia, a história, a antropologia, a ciência política.
Embora a psicologia esteja agregada à área das Ciências da Saúde, por tratar do homem ela não deixa também de ser uma “ciência humana”. Mas a filosofia e a psicologia são disciplinas construídas sobre princípios diferentes para “olharmos” a nós mesmos. A filosofia de forma genérica e universal estuda os grandes questionamentos do ser humano; a psicologia privilegia as interações da mente humana com a realidade concreta, portanto, tende a particularizar sua pesquisa e trabalho. Mas como são apenas formas diferentes de se dedicarem ao “mesmo” homem, a filosofia e a psicologia muitas vezes se “tocam”, quer dizer, ora se opõem ora se complementam, porque afinal o objeto de estudo é um só – o homem.
Por outro lado, as disciplinas podem ter dentro delas conjuntos de princípios e conceitos a partir dos quais os cientistas podem desenvolver suas idéias, que vamos chamar de correntes. Por exemplo, o Idealismo e o Materialismo são correntes filosóficas, enquanto podemos dizer que a Psicanálise e o Behaviorismo são correntes da psicologia. Por vezes as idéias desses pensadores e pesquisadores são tão originais e reconhecidas que formam uma escola. Por exemplo, o platonismo – pensamento de Platão - é uma escola do idealismo na filosofia, como o freudismo – pensamento de Freud – é a escola da psicanálise.
A filosofia empresta conceitos à psicologia – por exemplo, o trabalho de Freud começa e não deixa de ser uma profunda análise da condição humana no mundo moderno (O Mal-Estar Na Civilização). Afinal a psicologia é uma ciência moderna enquanto a filosofia é uma ciência milenar. Por outro lado, a psicologia pode obrigar a filosofia a particularizar e relativizar aforismos universais, resgatando a subjetividade criativa de cada mente humana e o reconhecimento de que cada consciência é uma consciência particular da realidade que a cerca.
Também o caráter do psicólogo pode ser enriquecido pela filosofia – por exemplo, a compreensão da fragilidade e angústia sobre a condição humana, e seus questionamentos existências sobre o sentido da vida contribui para uma visão tolerante e humilde dos problemas que afetam as pessoas. A filosofia “especula” sobre a natureza humana e, portanto, sobre o sentido da vida. Este especular é adverso à psicologia, pois esta procurou desde o inicio se identificar com os processos naturais da mente - o pensamento humano como produto de suas reações fisiológicas mais do que suas reações metafísicas.
No início a psicologia pretende verificar a correlação empírica dos vários tipos de pensamento ou sentimento com condições definidas do cérebro, partindo do princípio de que mentes são individuais e finitas. Esta postura positivista, emprestada das demais ciências naturais do final do século XIX e início do século XX, não é única: a necessidade de se afirmar como ciência autônoma fez acontecer o mesmo, por exemplo, com a sociologia (Auguste Comte). Sempre parece mais adequado a uma nova ciência seguir métodos de experimentação empírica, repetição e seleção de eventos pesquisados, neutralidade e objetividade, que são premissas das ciências naturais e biológicas.
Depois, o progresso científico e industrial verificados nos séculos XIX e XX indicava que longe das especulações metafísicas da filosofia o pensamento e os sentimentos humanos seriam mais bem compreendidos se seguisse os mesmos métodos laboratoriais das demais ciências naturais – afinal o ser humano não deixa de ser um ser natural.
Mas estaria a psicologia e os psicólogos aptos a entenderem o comportamento humano e a consciência em suas várias formas? Está afinal a psicologia capaz de compreender os outros seres humanos? É óbvio que o conhecimento sempre anda próximo do poder. A adequação da psicologia à área de conhecimento das ciências naturais – mais propriamente da saúde -, pode ser cativa da lógica técnico-científica de mercado. Neste sentido a eficiência da psicologia deve se prender a predizer e controlar as ações humanas, como um braço perverso da política e poder do Estado moderno (Michel Foucault)?
Talvez seja necessária mais massa crítica na formação do psicólogo. A finalidade da psicologia, afinal como da filosofia, é proporcionar a felicidade ao ser humano, algo que só pode ser conseguido se forem banidas a ansiedade e angústia a que está submetido o homem moderno. A psicologia é uma ciência moderna porque pretende responder a esta necessidade – esta é uma necessidade real. Afinal, o que distingue mesmo o homem moderno de seus antepassados medievais e antigos, é que a modernidade elevou o potencial de angústia e ansiedade na medida em que o sentido da vida mais e mais pode ser questionado à luz não só das novas descobertas do conhecimento, mas fundamentalmente da depreciação do ser humano.
Neste sentido, a filosofia ajuda na formação de um profissional que não “mecanize” a psicologia e não use o homem como “objeto indolor da terapia de adequação”. “Um modo interessante de lidar com essas questões e de desenvolver habilidades de pensamento crítico é o diálogo com os grandes filósofos, em particular com as teorias sobre natureza e comportamento humano. O diálogo com as idéias psicológicas dos filósofos auxilia na identificação dos elementos que devem compor uma teoria de psicologia, e mostra com clareza as perguntas que uma teoria psicológica deve responder. O distanciamento atual destas teorias permite a realização de um exame crítico indolor, sem patrulhamento e sem proselitismo. Como resultado, nós aprendemos a pensar psicologicamente e não através de determinada teoria psicológica” (William B. Gomes, 2008).
Dissemos que a filosofia tende a universalizar seus estudos, partindo de um homem amplo e comum, enquanto as ciências tendem a particularizar seus experimentos, inclusive o homem. No entanto a filosofia presta-se a formar massa crítica e a ampliar, tanto como a diversificar, os olhares sobre as “verdades”. As ciências tendem a esgotar as possibilidades e a construir paradigmas duradouros. Assim, enquanto o objetivo for compreender o ser humano em todas as suas dimensões, filosofia e psicologia podem emprestar mutuamente campos e olhares específicos sobre o homem, mesmo que fazendo recortes, procurando visões holísticas, sobretudo que possam livrar o ser humano de suas angústias e dores.
Um filósofo que faça leituras adequadas da alma e da consciência humana de forma particular estará dando um salto significativo para entender o sentido da vida; da mesma forma, um psicólogo que esteja familiarizado com o pensamento filosófico estará apto a combater em si a propensão ao tratamento que formata o “homem de rebanho” (Nietzsche). Ambos conhecimentos podem contribuir para um homem mais livre e feliz.
**
Gostaria de dar um exemplo magistral da combinação e cumplicidade que filosofia e psicologia podem emprestar como recurso à angústia humana: o eterno Retorno de Nietzsche. Este conceito na filosofia de Nietzsche é o equivalente ao “Big-ban” da astrofísica moderna. Resumidamente pode ser entendido assim: num espaço finito de forças infinitas, as coisas se repetem. Deixando a explicação científica dessa possibilidade de lado – pois verdadeiramente não é essa a questão mais importante para a teoria psicológica e filosofia psicanalítica -, o fato é que se por um momento imaginar essa possibilidade de que haverá um retorno de mim mesmo – pelo menos nada tão “insuspeito” quanto a ressurreição! -, a premissa mais verdadeira e ética é que eu deseje voltar, quer dizer, que eu tenha prazer em voltar. Então, não devo “viver cada momento como se fosse o último”, mas “viver cada momento de forma que o deseje viver novamente”!
Se a melhor vida é a vida que desejo que seja “eterna”, preciso ser feliz a meu modo, primeiro, porque simplesmente não faz sentido viver a vida dos outros e pelos outros se não a vivo por mim mesmo e para gozar plenamente de sua alegria – porque desejaria ser escravo eternamente?; segundo, porque obviamente não vou querer retornar repetindo as mesmas ansiedades, angústias e dores de hoje, onde nada haveria a acrescentar, a progredir. A vida é minha, o retorno na eternidade é meu, e o desejo lógica e racionalmente para capturar plenamente as potencialidades de ser feliz como eu sou, de minha maneira! É neste sentido que Nietzsche vai opor a ação à reação – tipos de forças, a afirmação à negação – qualidades de forças, condenando o niilismo a serviço de todas as formas de condenação e danação da vida – a religião, o poder, o ascetismo. E o que força o ser humano a essa “fraqueza” de atitude, a essa “degenerescência” da vontade”? Basicamente o ressentimento e o remorso.
Agora a filosofia metafísica se corporifica e se apresenta real: trata-se de categorias psicológicas incrustadas na consciência pela moral milenar (de Sócrates a Hegel). O ressentimento enfraquece o homem tanto quanto a preocupação em identificar o outro como culpado; o remorso deprime o homem quando a preocupação é me condenar pelo erro ou “pecado”. Ambos, ressentimento e remorso colocam nos ombros do homem um fardo que não suporta carregar, principalmente porque não precisa carregar. A vida agora lhe parece sem sentido e quanto mais sua ansiedade e angústia o condenam mais e mais a vida lhe é fugidia - nega-se o indivíduo como potencialidade de vir a ser no devir.
**
Como a teoria psicológica pode absorver isto? Como a prática da psicologia pode nutrir-se da filosofia – qual o papel da psicofilosofia? Ajudar cada ser humano a resgatar sua auto-estima, ganhar forças para derrotar o sem sentido da vida, livrar-se do peso dos males da condição humana que o oprimem, menos pelos erros de agora, mais pelos erros de sempre. Fortalecer-se, abandonar os fardos e a “beleza” de ser um “crucificado”, livrar-se da “nobreza” de sentir dor e remorso, valorizar seu poder pessoal em construir o seu eu, a sua essência, livremente. Depois, cada um pode oferecer aos outros aquilo que tem genuinamente seu: a ação própria, a subjetivação afirmativa, diante das falsas verdades e das más-consciências de “rebanho”.
Postar um comentário

MARCADORES

Abolicionismo Abolicionismo Penal adorno Agamben Alexy Amor Ana Carolina anarquismo antropologia antropologia jurídica Arendt Ariano Suassuna Aristóteles Artaud Atenas autoritarismo Auxílio-reclusão Averróis Balzac Bauman Beccaria Bentham biodireito biopolitica Biopolítica bioética brasil Brecht capitalismo censura Chaplin Chico Xavier Cicero Ciência Comportamento Comunicação conhecimento Consciência Constituição Consumismo Contratualismo Corifeu Criacionismo Criminologia Criticismo cuidado de si cultura Curso de Extensão Curso de Férias Cícero Código Penal Darwin Debord Decartes Deleuze democracia deontologia Derrida Descartes Desigualdade desmatamento Desobediência Civil Dialética direito direito alternativo direito civil Direito do Trabalho Direito Grego Direito Ibérico Direito Máximo Direito Mínimo Direito Natural Direito Penal Direito Positivo direito processual Direito Romano direitos humanos ditadura ditadura militar Domat dominação Domínio do Fato Dracon Durkheim ECA ecologia educação Egito Eleições Epicuro Epistemologia escolas jurídicas ESMP Estado Etnocentrismo Eumênides Evolucionismo existencialismo Fernando Pessoa Ficção filosofia filosofia direito filosofia do direito Filosofia do Direito. Filosofia OAB Flexibilização do Trabalho Foucault freud Fuller fundamentalismo física quântica Garantismo Legal Governar Gramsci greves Grécia Grócio Hannah Arendt Hegel Heidegger hermenêutica Hermenêutica Jurídica história História do Direito Hobbes holocausto Homoafetividade hospitalidade Hume Husserl Ihering Immanuel Kant Inquisição Isis Jerzy Kosinski Jesus José Sacadura jurisprudência Jusnaturalismo Juspositivismo justiça Justiça Restaurativa Justo Kafka Kandinsky Kant Kuhn Lacan Lars von Trier lei Lei das XII Tábuas lei seca Leibniz Lenine LEP liberalismo liberdade Livros Livros Sacadura Locke Loucura lógica jurídica Maioridade Penal Manifestações Marx Max Stirner Menores Infratores Mensalão Mesopotâmia Mill Mitologia modernidade Montesquieu moral Movimento Estudantil Movimentos Sociais Mídia nazismo neoliberalismo nietzsche Obama Objetivismo Operação Lava jato Ordem Oresteia Orwell Papa parlamentarismo partidos Passeatas patricia acioli Pena de Morte Perelman Persecução Probatória Pettit Pierre Clastres Platão Poder política População Carcerária Positivismo presidencialismo presunção inocência Princípios do Direito Prisões Prof Sacadura psicanálise psicologia psiquiatria Pufendorf punição qualidade quociente eleitoral quociente partidário Racionalismo Rawls razão Reale relativismo relativismo Cultural religião René Girard Responsabilidade responsabilidade social revolução Roberto DaMatta Roma Rousseau Rádio Justiça Sacadura Sacadura Rocha Saramago Sartre Schmidt segurança Shakespeare Sistema Criminal Sistema Penal Sistema Penitenciário sistema político Slovaj Zizek socialismo sociedade sociologia sociologia jurídica Solon Star Wars STF Sto. Agostinho Subjetividade sustentabilidade Sócrates. Tempo teorema zero teoria caos Teoria da Liberdade terrorismo Thomas More Thoreau tipos psicológicos Tomás de Aquino Tortura tripartida Troia utilitarismo Utopia Van Gogh verdade vida Viehweg violência Virtude vontade vontade de poder vontade de potência voto Wells Wittgenstein Wolff Zizek Ésquilo ética Índios

PESQUISAR BLOG

Carregando...

ARQUIVO BLOG